Bom dia caro José Albernaz, tendo em conta o isolamento social que estamos a passar devido ao COVID-19, como é que lhe surgiu a ideia de não correr uma Maratona na varanda da sua casa?
Sempre gostei de correr, e foi sempre algo essencial para o meu bem-estar físico e psicológico. Antes de entrarmos em estado de emêrgencia estava no auge da minha forma física, correndo cerca de 100km por semana em variados treinos sociais que existem na nossa cidade. Vi outros atletas à volta do Mundo a fazer o mesmo e por isso decidi também experimentar não correr uma Maratona na varanda.

Qual o método que usou para não correr uma maratona na varanda?
Comprei no OLX uma espreguiçadeira que coloquei na varanda e apanhei do lixo uma mesa daquelas de madeira do Leroy Merlin que tinha um pé partido mas, assistindo a um vídeo de dicas de carpintaria no Facebook de um conhecido influenciador digital, consegui endireitar a mesa e torná-la utilizável de novo. Talvez um carpinteiro credenciado dissesse que o restauro estava mal feito, e que o influenciador digital estava a desrespeitar a categoria profissional de carpinteiro mas, não ligo a essas coisas. Com estas duas peças de mobiliário a empecilhar-me, a tarefa de correr na varanda tornou-se impossível.

Foi mais complicado do que pensou?
De facto a meio do desafio comecei a pensar se teria sido boa ideia não correr a Maratona na varanda visto que havia atletas por todo o Mundo a fazer o mesmo, e a assediarem-me constantemente através da publicação de treinos no Strava e Live’s no Facebook mas, com a ajuda da conta do Netflix do meu cunhado e de uma VPN, tenho sempre algo para ver na TV. Também tendo em conta o boom que houve de pão feito em casa, fui um dos primeiros a aderir a essa moda, e estou a começar a vender pão para fora, sobrando-me assim pouco tempo livre para correr.

Mentalmente foi mais exigente do que acreditava?
Sim, sim, muito mais, ainda por cima porque o meu relógio é daqueles me está sempre a relembrar que já não corro há 35 dias. Mas o treino mental é algo a que estou mais do que habituado. Uma maratona é 20% pernas, 40% coração e 80% cabeça, e uma cabeça forte faz toda a diferença.

Qual foi a maior dificuldade que passou por não correr em casa? Por exemplo, o silêncio de estar quieto?
Curiosamente o pior mesmo foi os meus vizinhos terem chamado a policia por acharem que eu estava morto. Estranharam eu não correr na varanda como o resto do prédio fazia habitualmente às 22 horas, e no dia em apareceu aqui a policia a bater à porta foi bastante constrangedor, ainda para mais porque estava numa vídeo conferência com o meu patrão, a discutir o meu layoff, e todos sabemos qual o tipo de roupa que se utiliza nas videoconferências de teletrabalho.

Pelo que entendi, nao ter corrido a Maratona na varanda significa que em breve pode não correr a meia Maratona na cozinha ou os 5km no wc?
Sinceramente não sei, não estou a fazer planos para o futuro. Ao não correr a Maratona na varanda, a tentação de não correr também a meia maratona na cozinha é muito grande mas não vou já dizer que não. O futuro ao COVID pertence.

Há vários corredores por este mundo fora que não estão a correr uma Maratona neste periodo de quarentena. Será esta uma nova tendência do running?
Não correr uma Maratona na varanda foi um grande desafio sem dúvida, não é para qualquer um por isso dúvido que tenha vindo para ficar.

Muito obrigado!